terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Caminho

nós duas dirigimos
(ainda sem chegar)

e mandamos postais
e escrevemos cartas
enquanto rasgamos livros
e arranhamos discos
e estilhaçamos copos

enquanto isso -
é melhor acreditar:
voltar pra casa não importa

nenhuma estrada supera
a extensão das memórias.

(Larissa Andrioli)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Poemas da solidão


1
pernas descabidas
alheias ao movimento

sustentam pilastras
um mundo estático

tiro fotos
que ninguém olhará


2
quando
uma vidraça
não faz barulho

o tempo se desfaz
resoluto

uma vidraça se quebra,
se quebra, sempre

no relativo exato
deste segundo


3
onã,
o fabuloso

me faz comer
todas as mulheres

do mundo


4
a coxa pediu-me carona
dei-lha

a coxa possuía belos seios
boca carnuda

sentou-se ao meu lado
no longo sofá do carro

jamais novamente a vi
e ela rodava pelas madrugadas

quando, manco,
corro atrás dos amores impuros

5

*
os zeros são números neutros
nada indicam
de positivo
ou negativo

quietos como quem morre
ou ainda não nasceu

os zeros apenas
rugem nos fictícios arranjos
da poesia

**
pensar na matemática
é como descobrir
universos

ou

teorizar micro células
invisíveis
ao olhar humano

ou

a raiz quadrada
da poesia


6
o dia brilha
para o cão
para o boi, no pasto

na buceta inchada
na mão de minha mãe
na mão de meus irmãos

na coxa que um dia
fodi


7
eram dois desesperos
zeros
por isso se bastavam

como se dois sexos
abertos do universo
fossem

(oswaldo martins)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Poema do dia

o mundo terminou as suas funções
pedagógicas esta manhã

há horas encontrei
esta nova era
coisa já viciada nos seus
preconceitos regulares
nas deliciosas armas de
construir o pensamento

há horas vivo sem
poder responder ao desejo
esse clássico da errância humana

(Dora Robeiro - olho empírico)

Prosa avulsa 1


Todos conheceis a pro0funda melancolia que nos acerca, ao recordarmos tempos felizes. Eles são irrevogáveis, e deles somos cruelmente separados por uma distância maior que todas as distâncias juntas.

(Ernest Jüger – Nos penhascos de mármore)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Haver





Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:
— Perdoai! — eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia de simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do Grande Medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do próprio reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

variações poéticas sobre o corpo matemático da mulher de Tales de Mileto


variações poéticas sobre o corpo matemático da mulher de Tales de Mileto


I

a mulher de Tales
tinha pernas matemáticas.

II

eram poéticas
as pernas
da mulher de Tales.

III

foi nas pernas
de sua mulher
um pouco mais acima
que Tales
viu o triângulo.

IV

estando deitada
sua mulher
contemplando-lhe
dos pés
           à cabeça
à beleza do corpo
Tales vislumbrou
o triângulo isósceles.

V

quando de bruços
viu
sua mulher deitada
Tales deduziu que o diâmetro
                             divide
um círculo em duas
                             partes.


elesbão
(26e27/11/2011)

Fotografia


sábado, 26 de novembro de 2011

A respeito dos zum-zuns


Cantiga de longe, de Edu Lobo, lançado no ano de 1970, traz uma composição composta por seu pai, Fernando Lobo, e Paulo Soledade. Zum Zum, feita a partir do acidente com o avião da Panair, um constellation. Embora composta para homenagear o amigo, comandante da avião Constellation, da Panair, a música ganhou ares carnavalescos em 1951, quando Dalva de Oliveira a gravou.

A gravação de Edu Lobo é feita, nos EUA, com vinte anos de diferença, adquire um andamento mais lento, lamentoso. Há nesta gravação duas leituras possíveis, a de que Edu Lobo tenha reinterpretado o andamento original da música, o que teria um valor memorialístico bem específico de recuperar a origem da composição, o que certamente é importante. Entretanto há outra possibilidade, que creio ser mais importante, pois, além de englobar a perspectiva anterior, cria uma possibilidade de leitura de sua época, em que a tortura, o exílio e a prisão se tronaram ações constantes e causa de depressão social, com a qual convivemos até hoje, pelos estragos que os governos militares fizeram na educação pública, nas instituições democráticas e na participação popular.

Das diversas composições e interpretações que se fizeram e se tornaram, com justiça, uma espécie de hino, a partir do qual podíamos extravasar a frustação da participação social, prefiro este protesto silencioso e pungente.

(Oswaldo Martins)