Quando o dedão do pé nasceu, ficou
plantado no meio da sala. Talvez esperasse o resto do corpo vir aos pedaços.
Por pouco ficaria assombrando a memória de sua mãe, se ele não desse alguma serventia
ao que ainda lhe restava de vida. A unha encravada, o aspecto tenebroso daquele
menos que pé constituíram, meio que oracularmente, os percalços de sua vida. Depois
que o corpo veio se juntar ao dedo, JM passaria a vida inteira a buscar com a
obstinação dos atormentados um meio para fazer com que seu dedo, dedão, se
materializasse em todo seu esplendor, por isso o disseminou com o disfarce de
outras partes do corpo nos suportes que viria a utilizar.
Oswaldo Martins. Poeta e professor de literatura. Autor dos livros desestudos, minimalhas do alheio, lucidez do oco, cosmologia do impreciso, língua nua com Elvira Vigna, lapa, manto, paixão e Antiodes, com Alexandre Faria. Editor da TextoTerritório
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sábado, 1 de dezembro de 2018
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