quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Se eu fosse Hamlet

 SE EU FOSSE HAMLET

Tradução: José Paulo Paes


Se eu fosse Hamlet

comprava flores para Ofélia, gomas de mascar inglesa,

transístor com fones de ouvido,

champanhe, palitos –

e a convidava para viajar

a Florença ou Roma.


Se eu fosse Hamlet,

dava de presente a ela uma gaiola cheia de pipilantes tentilhões

um par de patins de estrela do gelo

uma permanente para os aerobarcos suecos.


Se eu fosse Hamlet,

me concentrava na minha vida amorosa

em vez de ficar a remoê-la por aí;

loteava Kronborg

em apartamentos de condomínio,

e ia morar numa casa em Fiolgade

– talvez comprasse até um colchão de água –


Se eu fosse Hamlet,

mandava às favas todas as especulações sombrias

e seria mais do que sou agora,

em vez de ficar só pensando a respeito

e fazendo longas preleções sobre.


Não me intrometia mais na vida sexual de mamãe,

se eu fosse Hamlet.

Admitiria logo que o velho está morto

e não ia mais perambular pelas noites escuras atrás de um fantasma

que no coração só tem vingança.


Se eu fosse Hamlet,

deixava Polônio ficar atrás das cortinas

tanto quanto lhe desse na telha:

afinal de contas, é só um velho gagá –

e me recusava a andar, fosse onde fosse,

com tipos tão ridículos quanto Gildensfúncio e Rosentonto

ou como quer que se chamem –


Se eu fosse Hamlet,

ia farrear com Horácio

beber chope com Frank Jaeger,

jogar dados com marujos nalgum boteco do ponto,

andar com donas suecas,

mandar tatuar no braço:

Ophelia, I Love You,

logo abaixo de um

coração em chamas –


isso se eu fosse Hamlet.


Peter Poulsen (Dinamarca, 1940) é poeta, escritor, tradutor, ensaísta e músico. 

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