Oswaldo Martins. Poeta e professor de literatura. Autor dos livros desestudos, minimalhas do alheio, lucidez do oco, cosmologia do impreciso, língua nua com Elvira Vigna, lapa, manto, paixão e Antiodes, com Alexandre Faria. Editor da TextoTerritório
quarta-feira, 1 de junho de 2022
O TERCEIRO OLHO DO POEMA
segunda-feira, 30 de maio de 2022
homem
o rubor da aurora
a lâmina fina
traçam no improvável
rasgo no qual
nem o eu
o ele nem o tu
existem
impessoal
o verbo-mosca
adeja direções ambíguas
o inseto-nós
traça no ar
nossa trama
de zé-ninguéns
segunda-feira, 11 de abril de 2022
camões de botequim
desde a imposição dos botequins
os noturnos de sarjeta pedem corpos
em vassalagem
esticam o corpo dormente –
lentos
pés sujos da rua convidam
a outro gole
aquele que na calçada dorme
o sonho dos anjos inebriado
de prazer
ante a dominadora fresta
o horror dos burgueses
ergue-se
contra o desvio dos amantes
e o mau comportamento
que Amor
a todos submete
quarta-feira, 6 de abril de 2022
maria
1
para horácio matela
o facão célere passa nos
cortes
tira as moças para dançar
o ypsilone de bastiana
o
camões dos sertões comanda
o
folguedo de seus homens
às
vezes tira dona maria
para
dançar o xenhenhem
2
no
raso da catarina folgam
as
moças sempiternas
no
raso da catarina maria
tira
de rainha-bela
no
raso da catarina bordam
moedas
de ouro
para
o cheiroso capitão
3
celebram
pelo outro lado
este
mar virado
os
sinos do notre-dame
misturado
ao bom jesus
o
que fora o bendito pó,
que
o conselheiro apregoou
segunda-feira, 28 de março de 2022
refrega
às seis horas o kyrie eleison
conforme o pó subia
a princípio frágil; fragorosos
caminhavam na caatinga
– pés e rostos duros –
assomavam com pedras
a carpir rezas
com as mãos
(oswaldo martins)
quarta-feira, 9 de março de 2022
a cabeça de sandor marai
para marcello barcinski
a cabeça girava sobre o
coturno
acusação de esfolha terra
ritmo e rictos em frenesi
dos zigomas manchas
gotejavam formas perpétuas
na consciência de seus algozes
os lábios que calados ainda
voz
se ouvia pelo século vindouro
intimavam a moto-perpétuo
a vergonha a mesquinhez o
logro
desta des republicana
civilização –
estupidez estampada nos selos
com que cerram olhos zigomas
lábios
dos corpos-corpo em praça
pública
nos recônditos porões das tiranias
oswaldo martins
terça-feira, 1 de março de 2022
juan rulfo
para martha e arturo rueda
em comala vieram os gigantes
de terra e morte
ide cobrar o nosso
vozes e silêncios súbitos
aludiam sob os pés das mulas
sobre a cova balas de
cantaria
incrustaram-se no alto da
torre
cujo fantasma descarnado a sânie
dos povos anunciara
na predicação da
língua-espelho
do pó ao pó
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
mar
no crestado cravam unhas
escavam para o além-terra
o movimento das partilhas
creem e soltam a dor-voz
na taipa dos casebres-ur
a fundar perseguidas visões
águas até do mar-resposta
sobre o vago aqueduto-pó
pelo sertão do infinito fim