quarta-feira, 1 de junho de 2022

O TERCEIRO OLHO DO POEMA

O terceiro olho do poema
vê estratos invisíveis
nas sensações do poeta

O terceiro olho do poema vê a fé
na terra do poeta.
Vê mais do que o poeta vê
no cotidiano
e em seu superficial
desenrolar dos acontecimentos.

O terceiro olho do poema vê
as insígnias da alegria
e as lágrimas alquebradas da tristeza
no poeta.

(traduzido via dinamarquês por Luciano Dutra)

[DIGTETS TREDJE ØJE]

Digtets tredje øje
ser usynlige lag
i digterens sanseindtryk.

Digtets tredje øje ser
fortroligheden
i digterens land.
Det ser mere en digteren gør
i hverdagen
og i det overfladiske
handlingsforløb.

Digtets tredje øje ser
glædens løsen
og sorgens knuste tårer
hos digteren.

(traduzido do kalaallisut ao dinamarquês pelo autor)

[TAALLAP ISAASA PINGAJUATA]

Taallap isaasa pingajuata
takusarpai
taalliortup isiginngisai
aamma malugeqqajanngisai.

Taallap isaasa pingajuata
takursarpaa
taalliortup nunaani
tatigeqatigiinneq
ulluinnarni taalliortup
tappiillinngikkaluarluni
takusinnaajunnaagaa
pingaartumik qaatsiaannarluni
allamut saaqattaarnermini.

Taallap isaasa pingajuata
takusarpaa taalliortumi
nuannaarnerup qilerussaagai
aliasunnerullu qulliisa
imerlaarsineri.

(Kristian Olsen Aaju)

segunda-feira, 11 de abril de 2022

camões de botequim

desde a imposição dos botequins

os noturnos de sarjeta pedem corpos

em vassalagem

 

esticam o corpo dormente – lentos

pés sujos da rua convidam

a outro gole

 

aquele que na calçada dorme

o sonho dos anjos inebriado

de prazer

 

ante a dominadora fresta

o horror dos burgueses

ergue-se

 

contra o desvio dos amantes

e o mau comportamento

que Amor

 

a todos submete

quarta-feira, 6 de abril de 2022

maria

1

para horácio matela


o facão célere passa nos cortes

tira as moças para dançar

o ypsilone de bastiana

 

o camões dos sertões comanda

o folguedo de seus homens

às vezes tira dona maria

 

para dançar o xenhenhem

 

2

 

no raso da catarina folgam

as moças sempiternas

 

no raso da catarina maria

tira de rainha-bela

 

no raso da catarina bordam

moedas de ouro

 

para o cheiroso capitão

 

3

 

celebram pelo outro lado

este mar virado

 

os sinos do notre-dame

misturado ao bom jesus

 

o que fora o bendito pó,

que o conselheiro apregoou

segunda-feira, 28 de março de 2022

refrega

 

às seis horas o kyrie eleison

conforme o pó subia

 

a princípio frágil; fragorosos

caminhavam na caatinga

 

– pés e rostos duros –

assomavam com pedras

 

a carpir rezas

com as mãos

 

(oswaldo martins)

quarta-feira, 9 de março de 2022

a cabeça de sandor marai

para marcello barcinski

 

a cabeça girava sobre o coturno

acusação de esfolha terra

ritmo e rictos em frenesi

 

dos zigomas manchas

gotejavam formas perpétuas

na consciência de seus algozes

 

os lábios que calados ainda voz

se ouvia pelo século vindouro

intimavam a moto-perpétuo

 

a vergonha a mesquinhez o logro

desta des republicana civilização –

estupidez estampada nos selos

 

com que cerram olhos zigomas lábios

dos corpos-corpo em praça pública

nos recônditos porões das tiranias

 

oswaldo martins

terça-feira, 1 de março de 2022

juan rulfo

 para martha e arturo rueda

 

em comala vieram os gigantes

de terra e morte

 

ide cobrar o nosso

 

vozes e silêncios súbitos

aludiam sob os pés das mulas

 

sobre a cova balas de cantaria

incrustaram-se no alto da torre

 

cujo fantasma descarnado a sânie

dos povos anunciara

 

na predicação da língua-espelho

do pó ao pó

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

mar

 

no crestado cravam unhas

escavam para o além-terra

o movimento das partilhas

 

creem e soltam a dor-voz

na taipa dos casebres-ur

a fundar perseguidas visões

 

águas até do mar-resposta

sobre o vago aqueduto-pó

pelo sertão do infinito fim