segunda-feira, 30 de maio de 2022

homem

o rubor da aurora

a lâmina fina

traçam no improvável

 

rasgo no qual

nem o eu

o ele nem o tu

existem

 

impessoal

o verbo-mosca

adeja direções ambíguas

 

o inseto-nós

traça no ar

nossa trama

de zé-ninguéns

segunda-feira, 11 de abril de 2022

camões de botequim

desde a imposição dos botequins

os noturnos de sarjeta pedem corpos

em vassalagem

 

esticam o corpo dormente – lentos

pés sujos da rua convidam

a outro gole

 

aquele que na calçada dorme

o sonho dos anjos inebriado

de prazer

 

ante a dominadora fresta

o horror dos burgueses

ergue-se

 

contra o desvio dos amantes

e o mau comportamento

que Amor

 

a todos submete

quarta-feira, 6 de abril de 2022

maria

1

para horácio matela


o facão célere passa nos cortes

tira as moças para dançar

o ypsilone de bastiana

 

o camões dos sertões comanda

o folguedo de seus homens

às vezes tira dona maria

 

para dançar o xenhenhem

 

2

 

no raso da catarina folgam

as moças sempiternas

 

no raso da catarina maria

tira de rainha-bela

 

no raso da catarina bordam

moedas de ouro

 

para o cheiroso capitão

 

3

 

celebram pelo outro lado

este mar virado

 

os sinos do notre-dame

misturado ao bom jesus

 

o que fora o bendito pó,

que o conselheiro apregoou

segunda-feira, 28 de março de 2022

refrega

 

às seis horas o kyrie eleison

conforme o pó subia

 

a princípio frágil; fragorosos

caminhavam na caatinga

 

– pés e rostos duros –

assomavam com pedras

 

a carpir rezas

com as mãos

 

(oswaldo martins)

quarta-feira, 9 de março de 2022

a cabeça de sandor marai

para marcello barcinski

 

a cabeça girava sobre o coturno

acusação de esfolha terra

ritmo e rictos em frenesi

 

dos zigomas manchas

gotejavam formas perpétuas

na consciência de seus algozes

 

os lábios que calados ainda voz

se ouvia pelo século vindouro

intimavam a moto-perpétuo

 

a vergonha a mesquinhez o logro

desta des republicana civilização –

estupidez estampada nos selos

 

com que cerram olhos zigomas lábios

dos corpos-corpo em praça pública

nos recônditos porões das tiranias

 

oswaldo martins

terça-feira, 1 de março de 2022

juan rulfo

 para martha e arturo rueda

 

em comala vieram os gigantes

de terra e morte

 

ide cobrar o nosso

 

vozes e silêncios súbitos

aludiam sob os pés das mulas

 

sobre a cova balas de cantaria

incrustaram-se no alto da torre

 

cujo fantasma descarnado a sânie

dos povos anunciara

 

na predicação da língua-espelho

do pó ao pó

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

mar

 

no crestado cravam unhas

escavam para o além-terra

o movimento das partilhas

 

creem e soltam a dor-voz

na taipa dos casebres-ur

a fundar perseguidas visões

 

águas até do mar-resposta

sobre o vago aqueduto-pó

pelo sertão do infinito fim

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Alessandra Martins lê um poema inedito do meu livro


 

ladainha do bom jesus

 

poema para muitos pés

 

pletora passos preclaros os pés

em clave de sol a pino

 

pisar pedras as escarpas

proteger o refluir do humor

 

crestado solar sobre o solo

rachado subir pelos rebordos

 

dos cravos espinhos cravar

calcanhares e artelhos parcos

 

pousar no plexo dos dedos

o perfurante das arestas

 

irregulares provas ao longo

corpo-serpente do morro

 

até as portas do paraíso

do nós que se revolta

 

(oswaldo martins)

 

Leitura coletiva de Manuel Bandeira