Oswaldo Martins. Poeta e professor de literatura. Autor dos livros desestudos, minimalhas do alheio, lucidez do oco, cosmologia do impreciso, língua nua com Elvira Vigna, lapa, manto, paixão e Antiodes, com Alexandre Faria. Editor da TextoTerritório
quarta-feira, 13 de março de 2013
Dois poemas de Alejandra Pisarnik
Naufragio inconcluso
Este temporal a destiempo, estas rejas en las niñas
de mis ojos, esta pequeña historia de amor que
se cierra como un abanico que abierto mostraba a la
bella alucinada: la más desnuda del bosque en el
silencio musical de los abrazos.
Amantes
una flor
no lejos de la noche
mi cuerpo mudo
se abre
a la delicada urgencia del rocío
(Alejandra Pizarnik)
teoria três das partes do universo
eu,
o multiplicador de celas
eu,
o inventor da ordem
eu,
o anjo senhor
eu,
desavindo
eu
desalinho
eu,
desacoimado
tomo
os corredores
velho
morador
eu,
o construtor de mundos
eu,
o navegador maluco
eu,
o servo senhor
passeio
os astros
pedra
solto
eu,
arthur
que
assino o mundo
(oswaldo
martins)
Bricanagem 4
conforme entendimento
inda há pouco introjetado
tudo é matéria de poesia
bagaços e miuçalha
mínimas noções fugazes
importa estar atento
para captação
para relacionar
alhos a bugalhos
unhas crescem
molhadas amiúde
poemas fulgem
quando há vigília
(Ricardo Tollendal)
segunda-feira, 11 de março de 2013
Man in a chair
man in a chair
Lucian Freud
Esperar sentado, mas sem
relaxar os músculos. Mãos
tensas nas coxas como quem
prestes a se levantar. Não
como quem, à espera, descansa.
E sim como se encurralado
na cadeira. Sem esperanças
nem expectativas. Sentado
na cadeira como quem não
espera exatamente nada.
sem certezas, com exceção
da única, e indesejada.
(Paulo Henriques Britto – Formas do
nada)
domingo, 10 de março de 2013
Bricanagem 3
nosso universo
melhor: universo que invadimos
vive aprontando alquimias térmicas
pra quebrar monotonias
sol de maio nunca aquece
como em novembro
a luz afeta cores
para felicidade de pintores e fotógrafos
diria mesmo que é regozijo irrestrito
a não ser quando chove
convém não esquecer
- epicuristas desvirtuados -
que água é parte integrante
de todas as tramoias físico-químicas
sábado, 9 de março de 2013
A namorada
Li hoje no facebook
notícia sobre a namorada do ministro do STF. A notícia é meio canalha, que me
desculpem os puros ou os puristas. Alega o blog, que noticia, ter a namorada 24
anos e com ele passear pelas praias de Trancoso de mãos dadas. Como não sou,
como na música de Aldir Blanc, polícia da xereca da vizinha ou do vizinho, o
fato de que o Ministro esteja namorando não me interessa. Que o ministro namore
é lá com ele.
Não pretendo o
conservadorismo dos erráticos. Que todos trepassem muito, que todos namorassem,
se beijassem fora da hipocrisia dos quartos fechados, mas nas repartições e
tribunais, nas praça pública, e não só em Trancoso, no Rio ou Brasília, sem as
liturgias dos cargos, sem o discurso tosco e bacharelesco que sempre dominou as
elites do país e fizeram da linguagem hipócrita um lugar propício às dominações
veladas. A trepada ou mesmo o beijo a céu aberto. Que os presidentes e
presidentas de quaisquer órgãos possam dançar os carnavais com uma bela mulher ou
um belo homem desnudos.
O inaceitável
para mim, no que tange ao Ministro, não é sua conduta privada, mas a presença
de certo traço imperial, certo reacionarismo de opiniões, que no caso de um ministro
pode custar muito ao país. Vejam que não digo ação técnica, derivada dos
estudos, da capacidade intelectual e do pensamento profundo sobre o homem, mas da
opinião raivosa e derivada dos terríveis meios da propaganda, das terríveis
mídias que não informam e conduzem à certeza dos achismos.
As colunas
sociais nunca me interessaram. Paga-se um alto preço, demandado pela
necessidade das fofocas e interesses escusos, para fazer parte delas. A mídia
pode custar, mas sempre cobra seu preço.
(oswaldo martins)
sexta-feira, 8 de março de 2013
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