sexta-feira, 8 de março de 2013

Bricanagem 2


antônia reclama
que a cidade é pavorosa

ela se engana

pavoroso é o domingo
todos eles são
dia que se usava para ir à missa

(Ricardo Tollendal)

quinta-feira, 7 de março de 2013

Bricanagem


a palavra protozoário
nem de longe se equipara a munheca
mas ambas vivem soltas pelaí

para nossa eventual degustação
palavras deveriam permanecer
numa caixa de sapatos
amontoadas em ordem alfabética

não faz sentido:
já existe o dicionário e afinal
este mundo se resume a fiapo de linha
que entope a pia dos banheiros

(Ricardo Tollendal)

Por que razão não se deve obedecer ao rei


Alguns episódios políticos são exemplares. Há poucos anos, o Sr. Juan Carlos, denominado Rei de Espanha, em uma reunião com representantes legítimos de várias nações refere-se ao presidente da Venezuela, Hugo Chaves, perguntando por que razão não se calava. A expressão, além de mal educada, condiz com as relações históricas de subordinação do povo latino-americano em relação aos países por que foram dominados. O direito a que se arroga o Sr. Juan – aliás rei por determinação de um estado facista – tem raízes profundas no traço de dominação que os povos europeus e seus sequazes latino-americanos impuseram, fazendo com que ficássemos calados durante cinco séculos – retire-se, por óbvio, o caso cubano que nos antecipa e emancipa.

Donos de possessões que se espraiavam muito além dos domínios de suas terras, os impérios europeus espoliaram as riquezas, a liberdade e destruíram as culturas autóctones. E nos ensinaram a submissão a seus desejos e ordens imperiais. O imperativo de valorização das terras longínquas foi se transformando ao longo da falência do modelo de dominação em uma consciente degradação (preguiça, odor, cor) que buscou nos tornar exóticos a nossos próprios olhos, fazendo com que não só nos macaqueássemos à moda dos europeus, mas e sobretudo que aderíssemos a um padrão de civilização que não escolhêramos.

Algumas consciências obviamente se levantaram contrárias às amarras que tiveram como resultado a pobreza, o analfabetismo, a incruenta bestialização das pessoas. Essas consciências de que era necessário lutar contra as forças adstringentes, que se colaram em nossas peles, sempre foram massacradas pelo poder real ou de persuasão que séculos e séculos de investimentos impuseram como naturais.

A voz do Sr. Juan se replica por toda uma camada da população que se vê ainda atrelada aos ditames de uma lógica que propicia a divisão da sociedade em camadas sociais bem distintas e que não podem ou devem se misturar. Os privilégios são claros: melhores empregos, melhores roupas, imóveis e o odiento sentimento de superioridade.

A graça e a força de Hugo Chaves estão em não respeitar os limites que a dita sociedade formal tentou lhe impor. Suas frases são lapidares e dão orgulho aos povos latino-americanos, por que a partir de sua posição firme devolve as malcriações, devolve séculos de humilhação e promovem mudanças não só na forma de reestruturar a sociedade, mas criando espaços para que nós, latinos americanos nos orgulhemos do que somos.

(oswaldo martins)


quarta-feira, 6 de março de 2013

desimitação de quintana


quem te feriu menininha
de olhos rubros

foram as buzinas
as sirenas
o escambau

quem te feriu
menina rota
e sem esperanças

o décimo segundo
andar
do ano

ou

o bocó
de pijama

(oswaldo martins)

Mulheres no divã 2



Delacroix

terça-feira, 5 de março de 2013

Mulheres no divã 1



Di Cavalcanti

RONNY SOMECK


Jasmin. Um Poema na Lixa

Fairuz ergue os lábios
para o céu.
Que chova jasmim
sobre todos que se conheceram
e não sabiam que estavam apaixonados.
Eu a ouvia cantar no Fiat de Muhammad,
ao meio dia na rua Ibn Gabirol:
Uma cantora libanesa a cantar num carro italiano,
conduzido por um poeta árabe de Baqa-al-Gharbiyye,
numa rua com o nome de um poeta hebraico da Espanha medieval.
E o jasmim?
Se cair dos céus do Armagedom
virará
por um instante
uma verde
luz
no próximo cruzamento.

DAHLIA RAVIKOVITCH (1936 – 2005)


para Itzchak Livni

Nove palavras eu lhe disse.
Você disse isso e aquilo.
Você disse: Você tem um filho,
Tem tempo, tem poesia.
As barras nas janelas ficaram gravadas em minha pele;
não dá para acreditar que aguentei tudo isso.
Eu não precisava, mesmo,
humanamente falando.
No dia Dez de Tevet o cerco começou;
no dia Dezessete de Tamuz a cidade caiu;
no Nono de Ab o templo foi destruído.
Eu suportei tudo isso sozinho.


Helmut Heissenbüttel


         Outono do poeta 1

         Quem exige a veracidade
         Tem de antes a si mesmo
         Desnudar disse
         Certa vez uma crítica ao
         Poeta mas quando ele o fez
         ela se espantou muito mais
         não se pode dizer disso


         (Trad. Rui Rothe-Neves e Georg Wink)


segunda-feira, 4 de março de 2013

Poesia 2013 Charles Simic

THE WHITE ROOM

The obvious is difficult
To prove. Many prefer
The hidden. I did, too.
I listened to the trees.

They had a secret
Which they were about to
Make known to me —
And then didn't.

Summer came. Each tree
On my street had its own
Scheherazade. My nights
Were a part of their wild

Storytelling. We were
Entering dark houses,
Always more dark houses,
Hushed and abandoned.

There was someone with eyes closed
On the upper floors.
The fear of it, and the wonder,
Kept me sleepless.

The truth is bald and cold,
Said the woman
Who always wore white.
She didn't leave her room much.

The sun pointed to one or two
Things that had survived
The long night intact.
The simplest things,

Difficult in their obviousness.
They made no noise.
It was the kind of day
People described as "perfect."

Gods disguising themselves
As black hairpins, a hand-mirror,
A comb with a tooth missing?
No! That wasn't it.

Just things as they are,
Unblinking, lying mute
In that bright light —
And the trees waiting for the night.

(Charles Simic)



O QUARTO BRANCO


O óbvio é difícil de
provar. Muitos preferem
o oculto. Eu também preferia.
Eu escutava as árvores.

Elas guardavam um segredo
que estavam prestes
a me revelar —
e não o fizeram.

Veio o verão. Cada árvore
de minha rua tinha sua própria
Xerazade. Minhas noites
faziam parte de suas histórias

selvagens. Entrávamos
em casas escuras,
casas sempre mais escuras,
silenciosas e abandonadas.

Havia alguém de olhos fechados
nos pisos superiores.
O medo e o fascínio me
mantinham bem desperto.

A verdade é nua e crua,
disse a mulher
que sempre se vestiu de branco.
Ela não saiu muito de seu quarto.

O sol apontava uma ou duas
coisas que tinham sobrevivido
intactas na longa noite.
As coisas mais simples,

difíceis em sua obviedade.
Essas não faziam barulho.
Era um dia do tipo
que as pessoas chamam "perfeito".

Deuses disfarçados de
grampos de cabelo, espelho de mão,
um pente com um dente faltando?
Não! Não era isso.

Apenas as coisas como são,
mudas, imóveis, sem piscar,
naquela luz brilhante —
e as árvores esperando a noite.

Tradução: Carlos Machado