sexta-feira, 21 de março de 2008

Lima Barreto

Enviou-me o Elesbão.

Embarco em Cascadura. É de manhã. O bonde se enche de moças de todas as cores com os vestuários de todas as cores.

(Lima Barreto)

minimalhas do alheio

7

nelson/segall


o olho
o branco do olho

de sinhá vitória

é o de um rapsodo
nordestino

ou o de um quadro
que erra.

(oswaldo martins, minimalhas do alheio)

Mulheres errantes II Segall

No porto

Jovem, de vinte e quatro anos, num barco de Tinos
chegou Emes a este porto sírio,
com a intenção de aprender o ofício de perfumista.
Contudo adoeceu na travessia. E, apenas
desembarcou, faleceu. Seu sepultamento, paupérrimo,
realizou-se aqui. Poucas horas antes de morrer, algo
disse em voz baixa a respeito de uma "casa" e de "pais muito velhos".
Mas quem eram eles ninguém sabia,
nem qual era sua pátria no extenso mundo helênico.
Melhor. Porque assim, enquanto
jaz morto neste porto,
seus pais sempre vão esperá-lo, vivo.

(K. Kaváfis. Trad. Ísis Borges da Fonseca)

quinta-feira, 20 de março de 2008

desestudos

3
ó surgida

ítaca sobra
sombras

sobre o marulho
das voragens

Homero

Nesse tempo, já todos quantos fugiram à morte escarpada
se encontravam em casa.salvos da guerra e do mar.
Só àquele, que tanto desejava regressar à mulher,
Calipso, ninfa divina entre as deusas, retinha
em côncavas grutas, ansiosa que se tornasse seu marido.
Mas quando chegou o ano (depois de passados muitos outros)
no qual decretaram os deuses que ele a Ítaca regressasse,
nem aí, mesmo entre o seu povo, afastou as provações.
E todos os deuses se compadecem deles,
todos menos Posídon: e até que sua terra alcançasse,
o deus não domou a ira contra o divino Ulisses.

(Homero - Odisséia - Canto I - segunda estrofe. Trad. de Frederico Lourenço)

terça-feira, 18 de março de 2008

Homero

Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou,
depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou,
cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a ele, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido á sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hiperíon,
o Sol – e assim lhes negou o deus o dia do retorno.
Destas coisas fala-nos agora, ó deus, filha de Zeus.

(Homero – Odisséia Canto I – primeira estrofe – Trad. de Frederico Lourenço)

sábado, 15 de março de 2008

Balada de Pedro Nava 1º trecho

(O anjo e o túmulo)
I
Meu amigo Pedro Nava
Em que navio embarcou:
A bordo do Westphalia
Ou a bordo do Lidador?

Em que antárticas espumas
Navega o navegador
Em que brahmas, em que brumas
Pedro Nava se afogou?

Juro que estava comigo
Há coisa de não faz muito
Enchendo bem a caveira
Ao seu eterno defunto.

Ou não era Pedro Nava
Quem me falava aqui junto
Não era o Nava de fato
Nem era o Nava defunto?...

Se o tivesse aqui comigo
Tudo se solucionava
Diria ao garçom: Escanção!
Uma pedra a Pedro Nava!

Uma pedra a Pedro Nava
Nessa pedra uma inscrição:
"- deste que muito te amava
teu amigo, teu irmão..."

Mas oh, não! que ele não morra
Sem escutar meu segredo
Estou nas garras da Cachorra
Vou ficar louco de medo

Preciso muito falar-lhe
Antes que chegue o amanhã:
Pedro Nava, meu amigo
DESCEU O LEVIATÃ!

(Vinícius de Moraes)

Pedro Nava

Deus Nosso Senhor depois de recortar as ilhas gregas, de fazer Siena e Florença, veio, em pessoa, criar um dos lugares mais lindos do mundo nessa entrada atlântica que é a baia de Guanabara. Pôs aqui o mais fabuloso perfil de montanhas que se possa imaginar. Deu-nos de presente o Pão de Açúcar, o Corcovado, os Dois Irmãos, a Pedras da Gávea, o Pico da Tijuca. Como rebanho menor ofereceu-nos, de quebra, colinas cheias de graça: São Diogo, favela, Saúde, Providência, senado, Conceição, São Bento, Castelo, Santo Antônio, Glória, Viúva, Nova Cintra, São João, Dona Marta, Cabritos... Soltou destas encostas seus riachos de ouro e prata serpeando entre avencas, samambaias e tinhorões: Carioca, Caboclas, Bispo, Rio Comprido, Maracanã.... Os portugueses entenderam como ninguém a paisagem e construíram à margem de seus córregos, ao longo de suas praias, na encosta de seus morros e dentro de sua floresta uma cidade harmoniosa, amena, doce e lógica como Lisboa. Veio depois o progresso. Tinha de vir, meu Deus! A cidade tinha de crescer e mudar no seu aspecto urbano. A república art-nouveau fez a cidade francesa de Passos, da Avenida Mem de Sá, do Cais do Porto. Aceitável. Seria fatal a cidade americana que vemos construir, Mas por que não construí-la com bom gosto e edifica-la só a custa de burrice? Por quê? Destruir nossas mais lindas igrejas e passar por cima delas o monstro da Presidente Vargas, cujo traçado funcional era a linha Marechal Floriano – Praça da República – Mangue. Pra quê? Derrubar o morro do Senado, o Castelo, o Santo Antônio. Cada um sabe que estas esplanadas se conquistam para explorações imobiliárias. Quem paga o pato é a baía, cujas angras, reentrâncias, singras e varadouros vão sendo retificadas aterradas, entupidas pela boçalidade que empurra o Rio para Niterói e Niterói para o Rio. Dentro de cinqüenta anos, se tanto, nossa baía será uma lembrança. È preciso retificar os rios. Certo. Mas por quê? Tapa-los como a esgotos e com isso enlouquecer as águas das enchentes. E as igrejas? São Francisco de Paula, Carmo, São Francisco Xavier, Santa Luzia, São José, Senhor do Bonfim, Candelária, Lapa dos Carmelitas são templos luso-brasileiros de torres de azulejos brancos, amarelos e azuis espelhando ao sol. Pois estão sendo capeados de cimento como já aconteceu a São José e com Senhor do Bonfim. Vocês lembram? Da Casa do Trem e do Paço da Cidade antes das restaurações-depredação de Gustavo Barroso e de Washington Luís. E o diabo é que ninguém pode fazer nada... Ah, Senhor, senhor, meu reino por uma forca!

(Pedro Nava – Balão Cativo)

quarta-feira, 12 de março de 2008

Dora Ribeiro Poesia

para as gaivotas de ruy belo

parca serenidade I

nunca gostei de gaivotas
não tenho mar suficiente
nem sequer águas
menos correntes

bicho que
pisa ondas e pedras
com a mesma certeza
não me parece fiável

luiza disse que
o poeta é um animal longo
desde a infância
mas isso incluirá
as gaivotas?



parca serenidade II

a infância é o nosso mais fiel e longo animal
(Dora Ribeiro in Teoria do Jardim)