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sábado, 15 de março de 2008

Pedro Nava

Deus Nosso Senhor depois de recortar as ilhas gregas, de fazer Siena e Florença, veio, em pessoa, criar um dos lugares mais lindos do mundo nessa entrada atlântica que é a baia de Guanabara. Pôs aqui o mais fabuloso perfil de montanhas que se possa imaginar. Deu-nos de presente o Pão de Açúcar, o Corcovado, os Dois Irmãos, a Pedras da Gávea, o Pico da Tijuca. Como rebanho menor ofereceu-nos, de quebra, colinas cheias de graça: São Diogo, favela, Saúde, Providência, senado, Conceição, São Bento, Castelo, Santo Antônio, Glória, Viúva, Nova Cintra, São João, Dona Marta, Cabritos... Soltou destas encostas seus riachos de ouro e prata serpeando entre avencas, samambaias e tinhorões: Carioca, Caboclas, Bispo, Rio Comprido, Maracanã.... Os portugueses entenderam como ninguém a paisagem e construíram à margem de seus córregos, ao longo de suas praias, na encosta de seus morros e dentro de sua floresta uma cidade harmoniosa, amena, doce e lógica como Lisboa. Veio depois o progresso. Tinha de vir, meu Deus! A cidade tinha de crescer e mudar no seu aspecto urbano. A república art-nouveau fez a cidade francesa de Passos, da Avenida Mem de Sá, do Cais do Porto. Aceitável. Seria fatal a cidade americana que vemos construir, Mas por que não construí-la com bom gosto e edifica-la só a custa de burrice? Por quê? Destruir nossas mais lindas igrejas e passar por cima delas o monstro da Presidente Vargas, cujo traçado funcional era a linha Marechal Floriano – Praça da República – Mangue. Pra quê? Derrubar o morro do Senado, o Castelo, o Santo Antônio. Cada um sabe que estas esplanadas se conquistam para explorações imobiliárias. Quem paga o pato é a baía, cujas angras, reentrâncias, singras e varadouros vão sendo retificadas aterradas, entupidas pela boçalidade que empurra o Rio para Niterói e Niterói para o Rio. Dentro de cinqüenta anos, se tanto, nossa baía será uma lembrança. È preciso retificar os rios. Certo. Mas por quê? Tapa-los como a esgotos e com isso enlouquecer as águas das enchentes. E as igrejas? São Francisco de Paula, Carmo, São Francisco Xavier, Santa Luzia, São José, Senhor do Bonfim, Candelária, Lapa dos Carmelitas são templos luso-brasileiros de torres de azulejos brancos, amarelos e azuis espelhando ao sol. Pois estão sendo capeados de cimento como já aconteceu a São José e com Senhor do Bonfim. Vocês lembram? Da Casa do Trem e do Paço da Cidade antes das restaurações-depredação de Gustavo Barroso e de Washington Luís. E o diabo é que ninguém pode fazer nada... Ah, Senhor, senhor, meu reino por uma forca!

(Pedro Nava – Balão Cativo)