Mostrando postagens com marcador poema do dia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poema do dia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Totem

O totem.
O para-raios de toda ação.
Buda do silêncio,

oblata fugaz
para o consolo do nada,

antena ancestral

aplacando tribulações
da tribo,
animal que se mexeu,
corvo, tigre.

Alto trigo.

Sóa terra não logrou
estar quieta.

A terra        erra
ainda.
*
(Daniel Jonas - Os fantasmas inquilinos)

quarta-feira, 19 de março de 2014

Poema do dia

escola de sereias


Roberta Close
doces pregas
crica suiça

Elizabeth Taylor
pentelhos sépia
beijo convexo

Rita Cadillac
cálido calipígio
língua alpiste

Marilyn Monroe
coxas suntuosas
foda póstuma

Luiza Ambiel
velcro ínvio
ilhargas de gel

Luma de Oliveira
frouxéis russos
vulva à coleira

Esther Williams
siriroca vítrea
cinema-placenta

(Sylvio Back - As mulheres gozam pelo ouvido)


terça-feira, 11 de março de 2014

Poema do dia

DEIXANDO PARA TRÁS

o vaso polido sobre a mesa
(há uma passagem debaixo do viaduto) –
na grama rente do parque submerso,
nós nos perderemos.



(Flávia Rocha)

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A insignia da poesia

INFERNO

(extraído de A DIVINA COMÉDIA)

Canto I

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.

Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Tant'è amara che poco è più morte;
ma per trattar del ben ch'i' vi trovai,
dirò de l'altre cose ch'i' v'ho scorte.

Io non so ben ridir com'i' v'intrai,
tant'era pien di sonno a quel punto
che la verace via abbandonai.

Ma poi ch'i' fui al piè d'un colle giunto,
là dove terminava quella valle
che m'avea di paura il cor compunto,

guardai in alto, e vidi le sue spalle
vestite già de' raggi del pianeta
che mena dritto altrui per ogne calle.

Allor fu la paura un poco queta
che nel lago del cor m'era durata
la notte ch'i' passai con tanta pieta.

E come quei che con lena affannata
uscito fuor del pelago a la riva
si volge a l'acqua perigliosa e guata,

così l'animo mio, ch'ancor fuggiva,
si volse a retro a rimirar lo passo
che non lasciò già mai persona viva.

DANTE ALIGHIERI


INFERNO

(extraído de A DIVINA COMÉDIA)

Canto I

No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída

Ah, como armar no ar uma figura
dessa selva selvagem, dura, forte,
que, só de eu a pensar, me desfigura?

É quase tão amargo como a morte;
mas para expor o bem que eu encontrei,
outros dados darei da minha sorte.

Não me recordo ao certo como entrei,
tomado de uma sonolência estranha,
quando a vera vereda abandonei.

Sei que cheguei ao pé de uma montanha,
lá onde aquele vale se extinguia,
que me deixara em solidão tamanha,

e vi que o ombro do monte aparecia
vestido já dos raios do planeta
que a toda gente pela estrada guia

Então a angústia se calou, secreta,
lá no lago do peito onde imergira
a noite que tomou minha alma inquieta;

e como o náufrago, depois que aspira
o ar, abraçado à areia, redivivo,
vira-se ao mar e longamente mira,

o meu ânimo, ainda fugitivo,
voltou a contemplar aquele espaço
que nunca ultrapassou um homem vivo.

DANTE ALIGHIERI

Versão em português por Augusto de Campos.


Nel mezzo del camim...

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Olavo Bilac


No Meio do Caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Jornada
para oswaldo martins

iam já cansados e tristes
pelos caminhos andados

(Elesbão Ribeiro)


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Poema do dia 2

quero uma vida em forma de espinha


Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo dum sítio sozinho
Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos
Em forma de pão verde ou de cântara
Em forma de sapata mole
Em forma de tanglomanglo
De limpa-chaminés ou de lilás
De terra cheia de calhaus
De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco
Quero uma vida em forma de ti
E tenho-a mas ainda não é bastante
Eu nunca estou contente



boris vian
canções e poemas
tradução de irene freire nunes e fernando cabral martins
assírio & alvim

1997

Poema do dia

arte

Aqui o tempo está à frente do tempo
E esse caso incomparável
Só acontece entre os profetas.

Apesar disso torna-se necessário
Que o nosso impulso para abeleza
Se manifeste em todos os instantes.

Porque já, ó surpresa,
Na pedreiras de mármore
Se trabalha o monumento de amanhã.

Nicolai Kantchev
Trad. Egito Gonçalves

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Poema do dia

ESTUDOS PARA UMA BAILAORA ANDALUZA


1
Dir-se-ia, quando aparece
dançando por siguiriyas,                                  
que com a imagem do fogo
inteira se identifica.

Todos os gestos do fogo
que então possui dir-se-ia:                              
gestos das folhas do fogo,
de seu cabelo, sua língua;

gestos do corpo do fogo,
de sua carne em agonia,
carne de fogo, só nervos,
carne toda em carne viva.

Então, o caráter do fogo
nela também se adivinha:
mesmo gosto dos extremos,
de natureza faminta,

gosto de chegar ao fim
do que dele se aproxima,
gosto de chegar-se ao fim,
de atingir a própria cinza.

Porém a imagem do fogo
é num ponto desmentida:
que o fogo não é capaz                                          
como ela é, nas siguiriyas,

de arrancar-se de si mesmo
numa primeira faísca,
nessa que, quando ela quer,
vem e acende-a fibra a fibra,

que somente ela é capaz
de acender-se estando fria,
de incendiar-se com nada,
de incendiar-se sozinha.

2

Subida ao dorso da dança
(vai carregada ou a carrega?)
é impossível se dizer
se é a cavaleira ou a égua.

Ela tem na sua dança
toda a energia retesa
e todo o nervo de quando
algum cavalo se encrespa.

Isto é: tanto a tensão
de quem vai montado em sela,
de quem monta um animal
e só a custo o debela,

como a tensão do animal
dominado sob a rédea,
que ressente ser mandado
e obedecendo protesta.

                                                                                                               
Então, como declarar
se ela é égua ou cavaleira:
há uma tal conformidade
entre o que é animal e é ela,

entre a parte que domina
e a parte que se rebela,
entre o que nela cavalga
e o que é cavalgado nela,

que o melhor será dizer
de ambas, cavaleira e égua,
que são de uma mesma coisa
e que um só nervo as inerva,

e que é impossível traçar
nenhuma linha fronteira
entre ela e a montaria:
ela é a égua e a cavaleira.

3
Quando está taconeando
a cabeça, atenta, inclina,
como se buscasse ouvir
alguma voz indistinta.

Há nessa atenção curvada
muito de telegrafista,
atento para não perder
a mensagem transmitida.

Mas o que faz duvidar
possa ser telegrafia
aquelas respostas que
suas pernas pronunciam

é que a mensagem de quem
lá do outro lado da linha
ela responde tão séria
nos passa despercebida.

Mas depois já não há dúvida:
é mesmo telegrafia:
mesmo que não se perceba
a mensagem recebida,

se vem de um ponto no fundo
do tablado ou de sua vida,
se a linguagem do diálogo
é em código ou ostensiva,

já não cabe duvidar:
deve ser telegrafia:
basta escutar a dicção
tão morse e tão desflorida,

linear, numa só corda,
em ponto e traço, concisa,
a dicção em preto e branco

4
Ela não pisa na terra
como quem a propicia
para que lhe seja leve
quando se enterre, num dia.

Ela a trata com a dura
e muscular energia
do camponês que cavando
sabe que a terra amacia.

Do camponês de quem tem
sotaque andaluz caipira
e o tornozelo robusto
que mais se planta que pisa.

Assim, em vez dessa ave
assexuada e mofina,
coisa a que parece sempre
aspirar a bailarina,

esta se quer uma árvore
firme na terra, nativa,
que não quer negar a terra
nem, como ave, fugi-la.

Árvore que estima a terra
de que se sabe família
e por isso trata a terra
com tanta dureza íntima.

Mais: que ao se saber da terra
não só na terra se afinca
pelos troncos dessas pernas
fortes, terrenas, maciças,

mas se orgulha de ser terra
e dela se reafirma,
batendo-a enquanto dança,
para vencer quem duvida.

5
Sua dança sempre acaba
igual como começa,
tal esses livros de iguais
coberta e contra-coberta:

com a mesma posição
como que talhada em pedra:
um momento está estátua,
desafiante, à espera.

Mas se essas duas estátuas
mesma atitude observam,
aquilo que desafiam
parece coisas diversas.

A primeira das estátuas
que ela é, quando começa,
parece desafiar
alguma presença interna

que no fundo dela própria,
fluindo, informe e sem regra,
por sua vez a desafia
a ver quem é que a modela.

Enquanto a estátua final,
por igual que ela pareça,
que ela é, quando um estilo
já impôs à íntima presa,

parece mais desafio
a quem está na assistência,
como para indagar quem
a mesma façanha tenta.

O livro de sua dança
capas iguais o encerram:
com a figura desafiante
de suas estátuas acesas.

6
Na sua dança se assiste
como ao processo da espiga:
verde, envolvida de palha;
madura, quase despida.

Parece que sua dança
ao ser dançada, à medida
que avança, a vai despojando
da folhagem que a vestia.
                                                                  
Não só da vegetação      
de que ela dança vestida
(saias folhudas e crespas
do que no Brasil é chita)

mas também dessa outra flora
a que seus braços dão vida,
densa floresta de gestos
a que dão vida a agonia.

Na verdade, embora tudo
aquilo que ela leva em cima,
embora, de fato, sempre,
continue nela a vesti-la,

parece que vai perdendo
a opacidade que tinha
e, como a palha que seca,
vai aos poucos entreabrindo-a.

Ou então é que essa folhagem
vai ficando impercebida:
porque terminada a dança
embora a roupa persista,

a imagem que a memória
conservará em sua vista
é a espiga, nua e espigada,
rompente e esbelta, em espiga.

JOÃO CABRAL DE MELO NETO





quarta-feira, 25 de setembro de 2013

poema do dia

ESCULTURA

A forma da fêmea integrou-se no corpo do macho,
Ambos uma só pedra
Onde ressaltam, invisíveis, separando-os
As duas almas supérfluas.

(Dante Milano)

domingo, 9 de novembro de 2008

Poema do dia

EVA

Quando a serpente estendeu a Eva uma maçã, falou-lhe
com uma voz, que ressoava
por entre as folhas como uma sinta de prata.
Mas acontece que sussurrou depois
algo mais em seu ouvido
com calma, muita calma, calmamente
algo que não consta da escritura.

Nem mesmo Deus ouviu direito este sussurro
mesmo escutando ele também.
E Eva não quis contar nem mesmo a
Adão.

Desde então a mulher esconde sob as pálpebras um mistério
e oscila seus cílios e insinua
que ela sabe alguma coisa,
que nós não sabemos,
que ninguém sabe,
nem mesmo o próprio Deus.

(Lucian Blaga)

Lucian Blaga é poeta romeno. Nascido em 1899 e morto em 1961. É considerado um dos poetas mais importantes e influentes da poesia romena do século XX. A tradução que se apresenta, feita diretamente do romeno é de Caetano Waldrigues Galindo.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Poema do dia

IN HOC SIGNO...

A Roma un'agenzia di pompe funebri
si chiama L'AVENIRE. E poi si dice
che l'umor nero è morto con Jena Paul,
Gionata Swift e Achille Campanile.

(Eugenio Montale)

IN HOC SIGNO.

Em Roma há uma casa funerária
que se chama o futuro. E ainda se diz
que o humor negro morreu com Jean Paul,
Jonathan Swift e Achille Campanile.

(Trad. Geraldo Holanda Cavalcanti)


sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Poema do dia

sofro de necessidades vegetais
quando o tempo sufoca
e o nariz seca numa aridez deslumbrada

o campo do horizonte quase nunca se
alarga
mesmo a 150 quilômetros por hora
por isso ando nestes dias
devagar

o carro não excede. piso no acelerador
e apenas penso melhor
nas curvas

na estrada nacional 120 não
há gente, nem bichos
apenas paisagem

numa construção ácida
e bela
(Dora Ribeiro - Teoria do jardim)