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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

tríptico para calder

 

calder I

 

a desimitação da árvore

 

florestas se fazem

folhas

 

não

 

estruturas mais lógicas

se põem

 

nos distratos dos olhos

planam em invertidos

caules

 

como se elas, as folhas,

voassem impulsionadas

pelo vento

 

 

calder II

 

é curioso:

 

as folhas quando caem

secam como os animais

 

tal morfologia entretanto

fazem-nas voar nos fios

da lucidez

 

calder III

 

o beijo de arthur

 

línguas se afagam

entre lógica e ilucidez

 

línguas entre lógica e

ilucidez se afagam

 

lógica e ilucidez entre

línguas se afagam

 

lógica e ilucidez afagam

se entre línguas

 

lógica e ilucidez se entre

afagam línguas

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

No blog do Lúcio Autran

Resenha no blog do Lúcio Autran

https://lucioautran.blogspot.com/

MANTO EMINENTE – Oswaldo Martins e Arthur Bispo do Rosário – os aedos desencantadores das palavras – ou “os planos da arte”.

“a voz na falha das mãos
os lenho-laços
os fios

os planos da arte”
sianinha – Oswaldo Martins
Ao menos para mim, é muito difícil fazer da loucura objeto da poesia, aliás, mais do que isso, difícil falar da loucura, poeticamente ou não. Tudo nesse assunto é estigma, até porque quem vivenciou alguma forma de... e aqui o problema se evidencia, como chamar a “loucura”? Doença mental, alienação? E seu sujeito, doido? Ou, carinhosamente, que por vezes é possível, principalmente nas lembranças mais remotas da infância, doidinho?
Melhor nomeá-lo assim do que apedrejá-lo ou dele rir, ou cuspir-lhe a face transtornada, pois a loucura nada tem de lírica, muito menos de divertida, ao contrário, ela dói, rasga de angústia seu portador e os que com ele convivem, pois a sociedade, se melhorou no trato com ele, foi muito pouco, e ainda está presente em nós, navega no nosso preconceito, a “Nau dos Insensatos”, o escondê-lo na vergonha dos segredos da família, medo talvez de que sobre nós recaia o fatal estigma, como certa vez arrisquei: “No fundo das grutas, esperando adormecerem / os filhos e os vizinhos, para saírem pelos fundos. / Como a nudez, é melhor escondê-los nas serras / de Barbacena, ouro podre do limite das grutas”.
É o medo de um estigma infelizmente ainda presente, pois quem, como dizia e as palavras me fizeram desviar, conviveu com alguma forma de loucura sabe como é tênue a membrana que separa a doença de uma suposta, e apenas suposta, “normalidade”, citoplasma mental.
Mas toda sinonímia é precária, senão impossível. Qual a abordagem possível da loucura, se mesmo a abordagem “científica”, médica, ainda padece de irremediáveis precariedade e desconhecimento, salvo, aberta e honestamente, confessar esses mesmos desconhecimento e precariedade?
Talvez a poesia seja a única forma possível, pois permite a desconstrução, permite a (in) significação, o (não)significado, o desprezo ao significante, a partir do estigma / enigma onde o encarceram.
Como reconstruir a linguagem dos loucos? E o chamemos assim, por estranho que pareça, pois ainda acho “louco” a palavra de menor força estigmatizante. Como nos aproximar de sua sintaxe, que sintaxe é essa e como se recria no nada?