quinta-feira, 2 de agosto de 2018

poema do novo livro - paixão


cervantes e aleijadinho

costas são documentos de inverdades
lanham-se nas possessões de espanha
tal triste figura a beber nas tavernas
como se da cruz o copo compusesse

dulcinéias em madalenas de pedras

quinta-feira, 26 de julho de 2018

autorretrato


desimitação para o 19º século


levantada a batina beneditino sua
com esforço esforça a testa imunda
o comprimido verso toma pela tunda
ou pelo medo de enfrentar a turba

disforme e sem emprego pelos becos
beneditino corre como um pobre clérigo
de cuja paróquia rouba não o verso
mas o assalto a um templo grego

ei-lo aí a misturar às datas vênias
a curitibana plateia de asininos filhos
a benzer-se com os diabos da maleita

pobre é a sentença a quem se deita
perdido o andaime do edifício
no etéreo terreno dos artifícios

(oswaldo martins)

quarta-feira, 18 de julho de 2018

desejos (nova versão)



1

ela se sentava
ao colo a manta
e uma xícara de pedinte

+  os olhos
+ os desejos

bem se viam
bem se desejavam

2

a manca – menos que um dos joelhos
as coxas firmes desenhavam vértices
prometedores

3

ela lava a xoxota na bacia das almas
apertava bem para ver se não pinga

quando se mudou levou a bacia mais o jarro
o enfermeiro atalhou ser ali

o cuidado das bruxas

4

só pele e osso
gritavam

enquanto o moço
enquanto a moça

com cada um se agarrava
pelo amor de outros

5

todos escusos amores
vivem para os almanaques
das anotações diárias
dos desejos embaçados

os prontuários da paixão

(oswaldo martins)

segunda-feira, 2 de julho de 2018

bens da perduração


os bens da perduração:
um relógio sem tempo
um cinzeiro estilhaçado
amores que se perdem

as benfazejas noites
um copo de cachaça
e um ombro para as
descargas emocionais

injeção para o tétano
e este pequeno risco
de palavras sustento
diário para o tranco

das desditas

(oswaldo marins)

sábado, 9 de junho de 2018

o capitalismo pós-moderno (sáitra menipéia)

a boca
era
um cu

o cu
uma
boca

assim como a bunda
era um rosto o rosto
era uma bunda

assim como olhos da cara
se tomavam como olho do cu
o olho do cu
custava os olhos da cara

(oswaldo martins)


domingo, 3 de junho de 2018

#LulaLivre



#LulaLivre
#LulaLivre
#LulaLivre
#LulaLivre

O Chefe da Polícia


Aberto como uma ferida, o sol no céu dessangra-se
Um aeródromo.
Prisioneiros preventivos, mãos no ventre.
Porretes, jipes,
muros da prisão, delegacias
e cordas que balançam sobre o patíbulo
e os conterrâneos que não aparecem
e um guri que não suportou a tortura
e se jogou do terceiro andar da Chefatura.
E aí está o chefe da polícia
salta do avião
volta da América
de um curso de formação.

Estudaram métodos para não deixar dormir
e ficaram maravilhados
dos eletrodos aplicados aos testículos
e também deram palestra sobre nossas celas de castigo,
ofereceram explicações satisfatórias
sobre como pôr ovos recém-cozidos nos sovacos
e como, delicadamente, esfolar com fósforos acesos a pele.
O senhor Chefe de Polícia salta do avião
volta da América
porretes e jipes
e cordas que balançam sobre o patíbulo,
o chefe voltou, dizem encantados.

Tradução Francisco Manhães do poema de Nazin Hikmet.