sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

As transgressões do primeiro trovador

Não se pode ser o primeiro em algo (por exemplo, “o primeiro trovador”) sem uma transgressão. Pois “ser o primeiro” significa ter feito ou realizado algo que ninguém antes havia feito ou realizado algo em que antes ninguém havia pensado ou obtido êxito, razão por que a expressão implica uma distinção entre “aquilo que ocorreu anteriormente” e “aquilo que ocorreu pela primeira vez”. Esse tipo de fronteira pode ser definido como o “limite de”; como limite daquilo que era possível até agora, daquilo que era até então considerado possível ou mesmo como o limite de algo que aconteceu antes. É uma fronteira além da qual algo novo e fundamentalmente diferente começa, não apenas um “outro mundo” que é basicamente similar ao mundo descrito pela fronteira. Muitas vezes, o individuo que cruza este “limite de” não está nem mesmo consciente de sua transgressão – então o acontecimento do atravessar-a-fronteira é estabelecido retrospectivamente por contemporâneos ou pela posteridade de alguém. Entretanto, pode-se violar intencionalmente os “limites de”. Essas intenções abrangem (de modo mais ou menos consciente) o desejo de reformar, de relativizar ou mesmo de abolir o limite que está para ser violado. Noutras palavras, essas intenções implicam um componente de agressividade (em termos mais modernos: crítica) para com o status quo.

(Gumbrecht, Hans Ulrich. As transgressões do primeiro trovador. In: Modernização dos Sentidos. Editora 34. São Paulo. São Paulo. 35. 1998)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Quinta baldia

Quinta baldia
(prosa em versos)

há no mercado Zona Sul
um vinho potuguês que chama
Quinta do Vale Perdido
não é bonito o nome?
compro um terreno baldio
ponho-lhe uma placa
QUINTA DO VALE PERDIDO
e deixo-o sempre baldio.

(Elesbão)

exercício para leveza

2

como quem põe todo movimento
no movimento

contrário ao fluxo

o amor tem nas desoras
silêncios e uma toada de mar

para navegar

(oswaldo martins)

exercício para leveza

1

para andar de bicicleta

há de se ter a leveza das garças
deixar com descuido a bolsa pender

a blusa deve descolar-se do corpo
e criar a magia de alegria e vento

com ar blasé, assobiar uma canção
de cartola ou nelson cavaquinho

e aqui e ali como quem não se importa
amarrar as cordas que decaem

das sandálias e dos cabelos

(oswaldo martins)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

VICÁRIO AMOR

Amor, sem resolução, assim
Verdade, bonito
Conversa muda
Olhos dizem.

Então, jorro de fala dela
E gesto, em muito
Cabelos ao vento, estrelas
Sua alva pele, menina
Ele, a noite.

Vestido comprido, em decote
Seios saltam como peixes
Há desejo e posse
Toma, é seu.

Confissão de amor
Expressões de prazer, gemidos
Sexo desesperado, a rua - cama.

Goza, agora!
Perdido o sussurro
Mulher obedece, sim...
Carpir-se devaneante
Grita, chora, morde
Bestafera, ama o amor do outro.

José Paulo Paes

L’ÀFFAIRE SARDINHA

O bispo ensinou ao bugre
Que pão não é pão, mas Deus
Presente na eucaristia.

E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente.

(José Paulo Paes – Poesia completa. Cia. das Letras)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sobre Cartola

Ouvir Cartola é provar do manjar dos deuses. As evoluções do violão, o canto certeiro que ninguém mais conseguirá cantar. Contenção na composição, na criação das letras, na elocução da voz. Perfeição das coisas simples e complexas, no paradoxo da beleza. Amo Cartola na incapacidade física de minhas palavras dizerem o alumbramento e a emoção totais.

Abaixo uma das homenagens que a ele prestei no meu último livro. De quebra dedicado a uma amiga querida, Therezinha Val, e lido por outro amigo querido, Ronald Iskin, para o cd que se fez acompanhar do meu último livro, Cosmologia do Impreciso. Gosto do cruzamento das homenagens.

1
para therezinha val

o uso de cartolas é de antanho

a música
um porém de tempos imemoriais

entre um camões
e a lucidez dos pixinguinhas

violões solam
o que silenciamos

(oswaldo martins)

Um Cartola da melhor qualidade

Corra e olhe o céu

Linda,
te sinto mais bela
te fico na espera
me sinto tão só
mas o tempo que passa
em dor maior bem maior

Linda,
no que se apresenta
o triste se ausenta
fez-se a alegria
corra e olhe o céu
que o sol vem trazer
bom dia.

(Cartola – Dalmo Castelo)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A Lua de Li Po

a lua de Li Po
para Dora Ribeiro
um dia a abracei

estavam gravadas nos lagos dos jardins
a minha e a face dos bambus

a lua era ali
e os bambus

perdida em mim
entoava

em lo-yang, à noite, uma flauta
de jade

(oswaldo martins)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Se eu fosse você 2, o filme de Daniel Filho,

Se eu fosse você 2, o filme de Daniel Filho,
apresenta rendimento para a idéia de intercâmbio de corpos por almas, coisa que tem história em caracteres e tipos do drama ibérico e agilidade de recorte gil-vicentino. O que uma alma de homem carrega para o corpo da atriz Glória Pires faz dela o craque de futebol que falta ao corpo simétrico na hora da pelada, no caso o do ator Tony Ramos. Os diálogos a sós do casal invertido lembra as situações semânticas da conversa entre as personagens Todo Mundo e Ninguém, do quase pós-medieval Gil Vicente. Quase porque ele escapa para a Renascença, mas seus estereótipos de Mal e Bem migraram para estereótipos grotescos de Macho e Fêmea, renascidos em gestos performáticos dos papéis genéricos de mulheres e homens ou outros que os corpos de Pires e Ramos aventam em trejeitos e gestos. No andar, na voz, na posição de dormir etc. A agilidade das falas confunde os papéis corporais trocados e por isso diverte. Mas mãe e pai são desempenhos à parte, uma vez que a gravidez só se pode dar no corpo de fêmea. Essa verdade salva o casamento da filha hesitante na hora de subir ao altar do sacrifício do amor dos seus pais, o casamento. Mãe e filha reencontram-se na comunhão de seus corpos grávidos. A canção “Pra Você” de Sílvio César – “ah, se eu fosse você, / eu voltava pra mim” – reencontra aí sua imagem real depois de cinqüenta anos. O romantismo retornado da estória, suas canções e locações, devolvem ao Rio de Janeiro uma nesga de auto-estima perdida dos anos dos arranjos dissonantes de bossa nova, depois de se haver dito que amor é bossa nova e que sexo é carnaval, sem contudo buscarmos os efeitos do contrário de tais atribuições. A pretexto de tentativa de voltar aos corpos originais, os protagonistas em processo de divórcio resolvem fazer sexo, engravidam e seguem invertidos. Então o amor grávido faz cair pela segunda vez o raio do buquê da noiva no mesmo lugar, as mãos reatadas dos corpos verdadeiros dos pais da noiva também grávida. O que importa é o casamento (?) – volta-nos como interrogação a memória suscitada da fala afirmativa perversa de um drama rodrigueano conhecido.
CLÁUDIO CORREIA LEITÃO