terça-feira, 1 de abril de 2008

Órfãos do Eldorado

A gente quer entender uma pessoa, só encontra silêncio

(Milton Hatoum - Órfãos do Eldorado)

Recomendando a leitura 10

Milton Hatoum vem se revelando, ao longo destes últimos anos, um dos nossos maiores escritores. Desde Relato de um certo oriente até o último livro, Órfãos do Eldorado, sua prosa, decidida, traz a lembrança dos grandes mestres. Por isso, a recomendação de leitura se restringe aos quatros romances que publicou.

1 – Relato de um certo oriente – Milton Hatoum – Cia. das letras. 1989.
2 – Dois irmãos – Milton Hatoum – Cia. das letras. 2000,
3 – Cinzas do Norte – Milton Hatoum – Cia. das letras. 2005
4 – Órfãos do Eldorado – Milton Hatoum – Cia. das letras. 2008.

sábado, 29 de março de 2008

a foto de um rei vadio

V. S. Maipaul

Meu pai estava doente. Mas ainda não à beira da morte. Eu costumava visitá-lo nos finais de semana. Sempre me aborrecia ver que a casa - mais um chalé do que uma casa na realidade - estava em péssimo estado de conservação, cheia de poeira e fuligem, as paredes precisando de pintura nova; e isso também aborrecia meu pai. Ele pensava que aquilo era muito pouco para uma vida inteira de trabalho e atribulações.
Eu sentia que meu pai tinha uma visão demasiado romântica de si mesmo. Especialmente quando se punha a falar de sua longa vida de trabalho. Há trabalhos e trabalhos. Criar um jardim, uma empresa, é um tipo de trabalho. É uma aposta em si mesmo . Num trabalho desse tipo, pode-se dizer que a recompensa é o próprio trabalho. Executar tarefas repetitivas na propriedade de alguém ou numa grande empresa é uma outra coisa. Ocupações assim nada têm de sagradas, por mais que, citando a Bíblia, as pessoas digam o contrário. Meu pai descobriu isso na meia idade, quando já era tarde para mudar. De modo que a primeira metade de sua vida foi dominada pelo orgulho, a idéia exagerada que ele fazia de sua empresa e de quem ele próprio era, ao passo que a segunda foi consumida pelo fracasso, pela vergonha, pela raiva, pelo dissabor. A casa sintetizava isso. Tudo nela era metade uma cois, metade outra. Nem cabana nem casa, nem indigente nem próspera. Um lugar abandonado á propria sorte.
(V. S. Maipaul - Sementes mágicas)

sexta-feira, 28 de março de 2008

Chave

Estávamos fechados no quarto há três meses. Saíamos, às vezes, apenas para, aqui e ali, fazermos uma rápida refeição. Voltávamos correndo ao nosso jogo, ao nosso quarto. R. e eu decidíramos não mais pertencer a este mundo, julgado por nós absurdo e mesquinho. Poucas palavras trocaríamos com ele, conosco mesmos - poucas palavras, era a regra; apenas as essenciais. A vida se assemelharia a uma outra realidade - sem causas, sem efeitos ou conseqüências - nenhum apelo existiria.

Dávamos cambalhotas e anotávamos os ruídos que as costas, ao baterem no chão, faziam. Depois líamos em voz alta os ruídos, e cada um dava a eles seu sentido próprio - essencial. Não era possível traduzi-los em outra língua que não esta, feita de espantos, descobertas e engasgos, cada vez mais excitantes e velozes. Batíamos palmas que, então, eram anotadas. Nossas interjeições!

Chegáramos mesmo a buscar a expressão minuciosa de cada ruído produzido e, como a caneta sobre o papel também fazia um leve e imperceptível ruído - jum, um, um -, procurávamos anotá-lo. Dependendo do traço, esse ruído eram vários - intermináveis. Sempre, sempre uma nova criação, um novo modo de encarar a vida - tudo era, então, a vida que se produzia a si mesma - intensa e inquieta.

Um dia, R. olhou-me; eu olhei R. - nos olhos - rimos muito e não anotamos mais nada. Saímos do quarto, trancamos a porta, jogamos - nosso último jogo - as chaves fora. Porque descobríramos não haver essência, mas a vida, a vida que não podíamos dominar. Por isso propusemos que hoje seríamos um; amanhã, outro e depois e depois, outros mais.

(Oswaldo Martins)

quinta-feira, 27 de março de 2008

Bicicleta

Mariinha não era Maria, era Julieta. Bicicleta, o sobrenome não era Bicicleta, mas Maria. Do pouco que se sabia da vida pregressa de Mariinha, essa era, com certeza, a única. O nome Bicicleta, que lhe acompanhava o pré-nome e que fora mantido pela tradição da cidade, era grande mistério sobre o qual muito se discutia. Mariinha era baixinha; loura, conforme relatos mais antigos, que dela guardavam lembrança. Usava cabelo curto, parecia uma atriz desconchavada de cinema e representava um papel crucial em na vida de todos. Era um ícone das noites em que se percorria a cidade em busca do que ela – em época áurea – oferecia.

O nome Bicicleta era um mistério. Várias era as coisas imaginadas – das mais estapafúrdias até as mais concretas e possíveis. Alguém peremptoriamente afirmava – história que todos aceitavam e preferiam – que vinha o bicicleta do nome de uma cena acontecida na cidadezinha onde morava, às margens do Rio das Mortes. Mariinha era moça e teria sido ali que escolhera nome e profissão.

Sucedeu que, pedalando pelas margens do rio, crendo estar só, resolveu, como uma Godiva das Gerais, pedalar nua. Teria sido vista assim em sua bicicleta e fora seduzida por um que passou. Gostou e resolveu começar seu noviciado a partir de então. Depois fora para a zona, de uma cidade próxima – onde exerceu seu magistério, depois seu pontificado.

Nas Gerais, a fama antecede o conhecimento. Mariinha era, mesmo antes de estabelecer-se como a preferida, um fenômeno que todos desejavam, pois correra de boca em boca a frase que teria dito pela ocasião do famoso passeio de bicicleta.

__ Gentes, num é que há coisa mió que zanzá daqui prá li. A temp’ra de uma vara tem mais valia que as bicicreta.
(oswaldo martins)

quarta-feira, 26 de março de 2008

Eugênio Hirsch

Eugênio Hirsch

Abro ao acaso a edição em que li pela primeira vez o Henry Miller. Sexus. Sobre um fundo branco, o retrato do autor cercado por mulheres de seios, pernas e bundas de fora. As letras que escrevem o nome de Miller, o título e subtítulos, dispersos, como se construíssem sobre o caos. Com prazer e saudade, releio o nome do autor da capa. Eugênio.

Eugênio Hirsch.

Tenho o prazer de ter na capa de um de meus livros – o minimalhas do alheio (por favor, revisor, com minúsculas) – o desenho de uma mulata, que me presenteou. No alto, à esquerda, as palavras que o descrevem e o nomeiam “Aurora de zapato alto e xibiu de fora”. Tão Eugênio, o desenho me permite diariamente o deleite de sua lembrança, de sua amizade e carinho.

Eugênio, nascido na Áustria, emigrado para a Argentina, veio um dia para o Brasil e daqui não mais saiu; fascinado, sobretudo pelas nossas belas mulatas. Dizia ele que as mulatas eram sua fascinação mais antiga, desde que, criança, em seu país natal, e pela primeira vez, viu seu corpo nu, cheio de encantos e magia. Ao desembarcar na Praça Mauá, dirigiu-se para um dos cabarés que ali davam acolhida aos estrangeiros. Casou-se com primeira que viu.

Quando o conheci, morava no mesmo prédio em que eu moro. Posso precisar a data, pois sua vinda para a Pires de Almeida 76 se deu quando meu segundo filho nasceu, em 1988. Convivi com Eugênio de 89 até sua morte em 2001. Foram 12 anos.

Eugênio andou pelo mundo. Fez trabalhos na Espanha, Inglaterra, EUA e alhures. No Brasil foi diretor de arte da Civilização Brasileira e da José Olympio, inovando a concepção da capa dos livros. Muitas são as histórias que contava, muitos os trabalhos que fazia. Lembro-me de dois especialmente interessantes feitos para a revista Playboy americana, que me mostrou. O das Bundas famosas e o do Jardim zoológico, que consistiam em transformar o corpo feminino em imagens reconhecidas da política internacional e em animais. Algo como se a bunda nomeasse o bunda retratado. Assim, o bunda Hitler, o bunda Stalin, o bunda Roosevelt, o bunda Churchil. Hilário.

Eugênio tinha o dom de um anarquismo profícuo e destruidor. Como quem brinca, teceu comportamentos, tomou decisões inusitadas. Dele, além da falta e do anarquismo comportamental, que admiro em qualquer pessoa, ficaram alguns desenhos e colagens. Dentre os trabalhos com que me presenteou está o projeto feito para o Pif-paf, intitulado Doze maneiras de entrar e sair da chavasca da dona. Uma festa para o espírito.

domingo, 23 de março de 2008

Mário Faustino

Mário Faustino- o quarto poema dos sete sonetos de amor e morte:


AGONISTES

Dormia um redentor no sol que ardia
O louro e a cera, dons hipotecados
Da carne postulada pelo dia;
Dormia um redentor nos incensados
Lençóis que a lua póstuma cobria
De mirra e de açafrões embalsamados;
Dormia um redentor no navegante
Das mortalhas de escuma que roía
O verme de seus sonhos abafados;
E até no atol do sexo triunfante
Do mar e da salsugem da agonia
Dormia um redentor: e era bastante
Para acordá-lo o verso que bramia
No cérebro do atleta e lá morria.

(Mário Faustino)

Sophia de Mello Breuyner Andresen

Senhor


Sempre te adiei
Embora sempre soubesse que me vias
Quis ver o mundo em si e não em ti
E embora nunca te negasse te apartei


1987
Sophia de Mello Breyner Andresen
Acaia

Aqui despi meu vestido de exílio
E sacudi de meus passos a poeira do desencontro



Sophia de Mello Breyner Andresen
(Rio de Janeiro, Cláudio Correia Leitão)