quarta-feira, 12 de março de 2008

bidê

permite a tuas pernas o invólucro
das paixões os tapetes os guizos
na água morna roçam-se as coxas
ó desmesurado, concebe nos teus
cômodos nossa acre licenciosidade

(oswaldo martins)

cena III

dentro não olho mais e ainda o olha
a imagem negadora trago fumo e coxa
a moldura dos quartos decaídas mãos

e valsas

cena II

o detalhe capta a imagem e te
integra toma teus olhos olha
na perspectiva mínima

(oswaldo martins)

terça-feira, 11 de março de 2008

figura deitada



em pancetti
o mar

aquarela
de canoas rotas

nesga de mar
e areia

uma mulher -
figura deitada -

enquanto o olhar
desaparece

sem horizontes

(oswaldo Martins)

GALWAY KINNELL

Everyone Was In Love
Galway Kinnell


One day, when they were little, Maud and Fergus
appeared in the doorway, naked and mirthful,
with a dozen long garter snakes draped over
each of them like brand-new clothes.
Snake tails dangled down their backs,
and snake foreparts in various lengths
fell over their fronts, heads raised
and swaying, alert as cobras. They writhed their dry skins
upon each other, as snakes like doing
in lovemaking, with the added novelty
of caressing soft, smooth, moist human skin.
Maud and Fergus were deliciously pleased with themselves.
The snakes seemed to be tickled too.
We were enchanted. Everyone was in love.
Then Maud drew down off Fergus’s shoulder,
as off a tie rack, a peculiarly
lumpy snake and told me to look inside.
Inside that double-hinged jaw, a frog’s green
webbed hind feet were being drawn,
like a diver’s, very slowly as if into deepest waters.
Perhaps thinking I might be considering rescue,
Maud said, “Don’t. Frog is already elsewhere.”


Segue outro de que gosto muito.
Galway Kinnel é americano e seu Selected Poems ganhou o Pulitzer em 1982.

(Lúcia Leão)

domingo, 9 de março de 2008

Do Lucidez do Oco

4

são nos quadros de chagal
aéreas viagens

pairam sobre nossas cabeças
pontes entre

o aqui
e o nada

(oswaldo martins)

quarta-feira, 5 de março de 2008

Gritos e sussurros

Mariinha contava casos. Um dos mais célebres de sua longa experiência se deu ali pela década de 50, quando ela ainda se preparava para ser a grande dama que é. A graça e riso contido sempre faziam parte de suas histórias.

Havia na cidade um relojoeiro manco e solteiro, que freqüentava a Casa toda quinta-feira, ali pelas oito horas da noite, quando as últimas pessoas se recolhiam a seus lares ou buscavam o aconchego que lhes faltava. Tal senhor cumpria seu périplo, disfarçava, lentamente olhando para aqui e ali, parando nas janelas da rua principal para um dedo de prosa. Não percebia que este era o aviso. Quanto mais disfarçava, mais atiçava o riso quieto das senhoras e a assuada da garotada, que ia se ajuntando, formando um distanciado, mas atento grupo. Dirigia-se, após essas delongas, manquitolando à augusta casa de Mariinha.

Chegava, olhava mais uma vez em torno de si, e entrava. Aflito que estava, não percebia a meninada que esperava na esquina. Após alguns minutos, tomava uma senhora já meio entrada em anos, mas ainda em suas funções, e se dirigia ao quarto três, que ficava na lateral da construção. Uma janela fechada, com cortinas simples, uma cama e a bacia com água para os testes de saúde e lavagem posterior. O quarto era franciscano. Havia outros melhor decorados, mas o dele devia imitar os quartos conventuais, com o toque inusitado das bacias de bentas águas.

Tinha, dizia a Mariinha, uma peculiaridade. Gostava de gritar na hora do gozo. Gritava, mas não como se costuma gritar os sem-sentidos do prazer, quando se é tomado pela animalidade dos sons. Gritava, correto. Evocava Deus, Jesus, a santíssima trindade toda! Os “ai meu Deus”, “ai Jesus” e os “meu espírito santinho”. Era o sinal para a algazarra da meninada. Vaiavam, gritavam reproduziam o pobre senhor. Macaqueavam, anunciando a famosa trepada pela cidade afora.

Saía após se arrumar. Ganhava a rua em direção a sua moradia que ficava perto. O rapsodo de sua façanha corria a cidade, enquanto ele, recolhido, dormia o sono dos justos.

As versões eram tantas e cada vez mais escabrosas que os – digamos – responsáveis pelos usos e costumes da cidade buscaram intervir. Foram o Padre, o Doutor para persuadir e o Chefe de Polícia para ordenar. Mariinha os recebeu no seu salão. Conhecia de cada um deles os desejos, as manias. Ameaças de uns e de outros, acordaram. O infeliz do homem não seria mais recebido. Aquilo era um assunto privado e não um espetáculo público.

“Acordos são acordos devem ser cumpridos ou burlados”, dizia a sábia senhora. Na quinta seguinte, o relojoeiro apareceu e, ao invés de se deparar com Zínia, sua amante, deparou-se com Mariinha, que o chamou para uma conversa. Acordaram. Não mais a gritaria seria ouvida, sob pena de as portas se fecharem. Mariinha instruiu. Nada de dedo de prosa, sorrisos. Isso apenas criava expectativas e a cidade nada tinha a ver com isso.

Fora a garotada esperava ansiosa. Já se passara mais tempo que o costume e nada, nada, nada. A decepção aumentou quando o viram sair da Casa e dar-lhes uma sonora banana. Depois manquitolar até a porta de casa. Os episódios serenaram. A garotada o seguiu mais umas duas quintas e foram rareando, rareando até sumirem-se. Estava limpa a cidade. Mariinha, percebendo que sua Casa e reputação não mais corriam perigo chamou o relojoeiro:

__ Vossemecê, já pode gritar. Agaranto a paz. Mas, veja, nada de sorrisos, conversas. De hoje em diante só os gritos. E chamou:
__ Zínia! Zínia! O senhor Napoleão. Deixe-o gritar.

E Napoleão gritou feliz seus ais que ecoaram sobre a cidade. Ai, meu Deus, como é bom. Ai Jesus, que eu morro. Zínia, Zínia ai que vou gritar.


(oswaldo martins)

segunda-feira, 3 de março de 2008

2

para o elesbão

púchkin
e a morte

klebnikov
e a morte

maiakovski
e a morte

o cartaz

convoca
para o próximo plenilúnio

(oswaldo martins)

domingo, 2 de março de 2008

A QUADRILHA DE MATA-CAVALOS

Bentinho amava Capitu que amava Escobar
que amava Iaiá Garcia que amava Brás Cubas que amava Carolina
que não amava ninguém.
Bentinho foi pra o Engenho Novo, Capitu para a Suíça,
Escobar morreu afogado, Iaiá Garcia acabou na tv,
Brás Cubas foi o primeiro defunto-autor
e Carolina casou-se com Joaquim Maria Machado de Assis
que sempre quis entrar para a história.


(Cesar Cardoso)

Piparotes

Muitos, nestes últimos anos, leitora querida, são os que vêm perguntando indagando sobre Capitu. Apenas cócegas no nariz me fazem algumas das questões propostas, outras me dão o desejo de levantar-me e ir até quem as faz e dar-lhe uns poucos piparotes. Inútil tanto uma quanto outra, já que não posso me mover e levantar os braços, levá-los até à altura do rosto e deixar que os dedos me livrem deste pequeno incômodo, nem ir ao pé daqueles que me provocam para aprestar-lhes o piparote. Fico aqui, nesta quietude. Ao meu lado José Dias se permite uma involuntária careta, fruto talvez de suas andanças pela terra, a querer descobrir e fazer por mim aquilo que é minha vontade.

A narrativa de minha vida, que em determinado momento escrevi, fechou-se. No início, indagava-se a leitora se teria mesmo Capitu me enganado. Eu ria, defunto novo, de suas conjecturas. Libelos foram escritos contra e a favor das minhas atitudes, uns defendiam meu tirocínio, outros viam em mim um monstro, apenas. Eu ria, José Dias era quem ficava incomodado.

Este século, leitora, não é o meu. Andávamos pelas ruas, freqüentávamos os jardins da cidade – uma ou outra confeitaria. A bisbilhotice era feita em sussurros, os ovos vinham das granjas ao pé da cidade. Nada era relativo. Os homens vestiam seus ternos e trabalhavam ou ao menos fingiam. As ciências contavam verdades. Hoje nem nas ciências pode-se acreditar mais – os artefatos que servem para educar uma criança permitem que elas tracem sistemas complexos, que, embora não entendam, produzem maravilhas visuais.

Peço, leitora amiga, que tome um objeto de meu tempo. Observa este objeto. È simples. Basta girá-lo que maravilhas se produzem. É feito de um tubo cilíndrico, um jogo de espelhos, uns poucos vidros, papéis, coisas coloridas. Há nele um pequeno orifício no qual colocamos somente um dos olhos. As imagens mudam, se transformam a cada movimento que faz se neste tubo. Chamam-lhe calidoscópio ou caleidoscópio.

Se o não tomar nas mãos, esqueça de mim, de meu pequeno romance – não se perde grande cousa, ou apenas impute, caso o queira, a Capitu pena ou perdão. Caso queira compartir de meu pensamento, compare. Na ânsia de descobrirem a verdade dos fatos, muitos de vocês reinventaram minha vida. As mulheres disseram que eu previra os dias em que elas sairiam de suas casas e disputariam com os homens um lugar na hierarquia do trabalho. Outras viram em mim o advogado ansioso por livrar-me de minhas angústias e dúvidas. Até um, mais jocoso, quis acusar de prever, em sua época, as modificações dos costumes entre os homens e as mulheres.

Todos se enganam, não compreendem ainda o calidoscópio narrativo que inventei. Torça o romance, faça-o girar, leitora amável. Não faz o calidoscópio, com os mesmos vidros, com um único tubo e um jogo de espelhos imagens inumeráveis? Tome o partido ora de um, ora de outro. Inicie pela indignação de José Dias, vá compondo o que a partir dele forma a narrativa e terá uma imagem. Aceite o ponto de vista de Dona Glória e terá outro livro. Mude o tempo em que o lê, ainda outro livro cairá em sua mão. Não se esqueça das ciências, elas também compõem o mosaico de meu instrumento. Não se esqueça de observar Capitu.

Se não quiser receber o piparote que lhe reservo, leitora, já há um século, cuida de me esquecer Capitu. Seu século inventou um outro mundo – nele cabe pensar na relatividade das coisas – pois que até o universo tornou-se relativo – já não adianta pedirem os namorados que olhem as estrelas, elas já não estão mais ali.

Meu livro é somente a narração de uma vida, de um silêncio. Há diversas lacunas nele, para preenchê-las deve fazer girar o artefato e não desprezar nenhum dos desenhos que se formar – anota-os com cuidado e deixe essas anotações para aqueles que venham se ocupar desta tarefa inútil de apreender a totalidade da vida.
(oswaldo martins)