Mostrando postagens com marcador Murilo Mendes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Murilo Mendes. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Dois inéditos


murilo mendes

o ponto em suspensão
desavém do ponto sequer
toca voz inalcançável

o que se diz de um ponto
se espraia no horizonte
com que cada um

cervantes
guillén
machado

desborda no ato mesmo
da sintática opção

o bico deste pássaro
quase a não ser

este piano a tocar
as madeixas no caos

*

beatriz



um gosto de azaleia nas casas fechadas
descarrega as alças de nossas camisas
soltos os peitinhos balançam o tempo

indagam para o céu dos apartamentos
onde o sol o cosmético lunar se põe
e com pelicas e delicadeza o dia findo

desce até o carpe diem do térreo
e espreita desde a hora inerte
a vida o sopro as pedras o pó

o caminhante se vai porta afora
com o absinto das saudades tange
um aboio de abajures a meia-luz

(oswaldo martins)

terça-feira, 24 de março de 2020

Homenagem a Oswaldo Goeldi


Oswaldo gravas:
A ti mesmo fiel, ao teu ofício,
Gravas a pobreza, o vento, a dissonância,
A rude comunhão dos homens no trabalho.
Gravas o abandonado, o triste, o único,
O peixe que te mira quase humano
— É hora de morrer —
No preto e branco, no vermelho e verde.
Qualquer traço perdido,
A casa que espia pelo olho-de-boi
Testemunha de drama anônimo.
Gravas a nuvem, o balaio,
O geleiro e seus estilhaços.
O choque em diagonal de guarda-chuvas,
Tudo o que é rejeitado, elementos marginais,
A metade dum astro que se despe
Amado só do penúltimo vadio.
Oswaldo gravas,
Gravas qualquer solidão.
Os peixeiros que partilham peixe e onda,
Pássaros de solidões de água e mato,
O sinaleiro do temporal próximo,
A barca puxada pela sirga,
O bêbedo e seu solilóquio,
A chuva e seus túneis,
O mergulho em tesoura da gaivota.
És do sol posto, da esquina,
Do Leblon e do uivo da noite.
Não sujeitas o desenho à gravação:
Liberaste as duas forças.
Atingindo agora a unidade,
Pela natureza visionária
E pelo severo ofício
A tortura dominando,
Silêncio e solidão
Oswaldo gravas.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Murilo Mendes

Juan Miró

Soltas a sigla, o pássaro e o losango.
Também sabes deixar em liberdade
O roxo, qualquer azul e o vermelho.
Todas as cores podem aproximar-se
Quando um menino as conduz no sol
E cria a fosforescência:
A ordem que se desintegra
Forma outra ordem ajuntada
Ao real – este obscuro mito.


(Murilo Mendes – Antologia poética – Cosac&Naif)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O MUNDO INIMIGO

O cavalo mecânico arrebata o manequim pensativo
que invade a sombra das casas no espaço elástico.
Ao sinal do sonho a vida move direitinho as estátuas
que retomam seu lugar na série do planeta.
Os homens largam a ação na paisagem elementar
e invocam os pesadelos de mármore na beira do infinito.
Os fantasmas vibram mensagens de outra luz nos olhos,
expulsam o sol do espaço e se instalam no mundo.


(Murilo Mendes) 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

MULHER VISTA DO ALTO DE UMA PIRÂMIDE

Eu vejo em ti as épocas que já viveste
E as épocas que ainda tens para viver.
Minha ternura é feita de todas as ternuras
Que descem sobre nós desde o começo de Adão.
Estás encarcerada nas formas
Que se engrenam em outras na corrente dos séculos.
E outras formas estão ansiosas por despontarem em ti.
Quando eu te contemplo
Vejo tatuada no teu corpo
A história de todas as gerações.
Encerras tua filha, tua neta e a neta de tua neta.
Ó mulher, tu és a convergência de dois mundos.
Quando te olho a extensão do tempo se desdobra ante mim.


(Murilo Mendes – As Metamorfoses)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Poema do dia

GAUDÍ

A força do irracional concreto
Suspende curvas com o valor de retas.
Aparece-nos o gênio da pedra espessa,
Não desbastada: talhada
No cerne mesmo da estrutura.

O anteontem da pedra
Descerra o espaço cifrado:
A mão de Gaudí sabendo criar elementos
Que extraem de Montserrat o gótico e o barroco
Inspiram residência, igreja, parque
Onde montamos o Pégaso

(Murilo Mendes - Tempo espanhol)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Poema do dia

Aos poetas antigos espanhóis

Da linguagem concreta iniciadores,
Mestres antigos, secos espanhóis,
Poetas da criação elementar,
Informantes da dura gesta do homem;
Anônimos de Castela e de Galícia,
Cantor didático de Rodrigo El Cid,
Arcipeste de Hita, Gonçalo de berceo,
Poetas do Romancero e dos provérbios,

Vossa lição me nutre, me constrói:
Espanha me mostrais diretamente.
Que toda essa faena com a linguagem,
Mestres antigos, secos espanhóis,
Traduz conhecimento da hombridade
(O homem sempre no primeiro plano).

(Murilo Mendes – Tempo espanhol)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Murilo Mendes

Juan Gris

Espanha, mestra do espaço,
Deu a pureza, medida
Na área total da pintura
Com o Gênio da concisão,
Pelo pincel de Juan Gris.

Nessa pentura pensada
com clareza dialética,
Espanha, dita "irracional",
Pelos planos de Juan Gris
Mostra o acordo e simetria.

(Murilo Mendes - Tempo Espanhol)