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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Diário de Manuel VIII

houve o casario da lapa – os arcos enfeixavam
sentimentos de água e suicídio

funâmbulos sobre o mais alto vão
disputavam com o bonde a paisagem
e as etéres namoradas

esmeralda ancava pelos dancings
peloas bares ao ritmo do jazz-band

o português vendia cachaça
e sotaque de bagaceira

a vida era improdutiva e brutal
como o amor dessa puta

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Diário de Manuel

IX

Parei na esquina da Porto Alegre. Estava fora de mim naquele instante. Verão. O vento soprava seus mormaços – o corpo, com molície e quebranto. Vi um senhor magro, com um sorriso cândido, se aproximar. Era feio, mas transpirava certa inquietude. Óculos de aros grossos, de míope.
(Oswaldo Martins)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Diário de Manuel

VIII

Tendo saído a promoção de Misael, ele trouxe vinho. Bebemos em silêncio – a vida no Estácio era boa – corria sem sustos, sem deslizes. Eu remoçava, bem tratada. Bebemos o vinho, ele puxou-me pela mão – frouxamente – até o quarto, retirou sua roupa, colocou o pijama. Deu-me um longo beijo na testa, virou-se para o lado e dormiu. Passei a noite olhando o Misael dormir.

Quando acordou pela manhã, avisei que ia demorar a voltar, chegaria tarde, talvez dormisse fora. Foi a primeira vez. Inventei uma irmã, lá pelos lados da Constituição. Esperei que saísse, tomei um bom banho, passei perfume – Misael me dera um perfume caro, cheiroso. Esmalte vermelho – as unhas estavam bem cuidadas, limpas. E pela tarde escapuli.

Aprendera que Misael era metódico. Passava sempre pelas mesmas ruas. Da Avenida Presidente Antônio Carlos onde trabalhava, caminhava até a Rio Branco, onde pegava um bonde para casa. Espreitei distante, para confirmar. Pegou o bonde por volta das seis horas da tarde; tinha um buquê de flores na mão. Quando o ônibus se foi, suspirei e me dirigi à Cinelândia, onde havia diversos bares e muitos homens esperando por um fim de noite mais digno do que o dia de trabalho.

(oswaldo martins)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Diário de Manuel

VII

Misael já havia saído. Deixou a mesa posta – bolos, biscoitos e leite – a louça que usou de manhã já estava lavada – no bilhete, sobre a mesa, benzinho e um conselho para que dormisse. Jogo a cabeça para trás e rio, com vontade. Mordo um pedaço de bolo, farelos caem de minha boca, sujam a mesa, o chão da sala, do corredor – do banheiro, onde me sento para uma mijada boa e quente. A cama está feita, há bom dinheiro sobre a escrivaninha – tiro minha roupa e durmo de uma só tacada.


Misael era baixinho e careca – parecia um sapo, desses que gritam grosso, que enchem o papo, que se olham no espelho e saem de brilhantina nos bigodes e cabelo para a Rua do Ouvidor. Era das antigas, o homem. Tinha já 63 anos, era funcionário público – da Fazenda, uma carreira a respeitar.

(oswaldo martins)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Diário de Manuel

VI
Gosto de ler o que os jornais publicam; principalmente, os assassínios, os estupros, as punhaladas. Há vida, numa intensidade tão verdadeira que, mesmo percebendo, sob a capa de cada notícia, a mão do repórter forçando os horrores da linguagem, me entrego completamente ao seu relato. É um alumbramento. Pela manhã, após o desjejum, pego os jornais, separo as partes – esporte, política, cultura, tudo – tomo as páginas policiais e me dirijo ao banheiro para cagar e ler. Demoro o quanto posso.
(oswaldo martins)

domingo, 20 de janeiro de 2008

Diário de Manuel

V

Vem-me uma vontade doida de cantar, dizer asneiras. Versos e mulheres sempre foram meu fraco, e, desde que adoeci, o cigarro. Gosto dos excessos, dos transbordamentos.

Há dias possuí uma mulher que me deixou impressas as marcas do cinismo. Tinha um bom corpo e, como eu, estava marcada pela morte - um morto percebe o outro de longe. Os desejos se tocam com crueldade, pois sabem que o tempo é curto e que todo carinho, toda ternura não devem ser desperdiçados. É preciso contenção, dedicação e trabalho para que o prazer não escape pelas mãos. É preciso saber o que se vive e para que se vive, quando se tem a certeza da morte. A vida deve ser contida para alcançar o excesso nos poucos anos que sobram.

Esmeralda sabia disso.

(oswaldo martins)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Diário de Manuel

IV

Não me arrependia, não senhor. Misael era também velho. Por seu corpo uma onda de calor fez com que ela associasse o nome de Misael ao do homem que a tomou na rua e a levou para seu apartamento. Uma bosta, o Misael; não compreendia suas vontades. Queria-a transformada em santa, fazer o papai e mamãe uma, duas vezes por semana e só. Meu sexo vivia latejando, querendo minha antiga vida, as esquinas onde, mesmo em pé, recebia minha cota de trepada e dinheiro.

(oswaldo martins)

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Diário de Manuel

III

O velho era esquisito, tinha uma voz rouca, de dar medo, mas aparentava calma e satisfação ao vê-la; embora nervoso e tenso, quando a tomou com as mãos firmes pelo braço e a levou ladeira acima, para sua própria casa. Casa simples, de homem sem mulheres; no entanto, nada revelava ser ele um homem inexperiente. Conduzira-me com sabedoria, gozando cada movimento – parece que lia minha alma de puta. Enfim, a trepada fora boa, a noite calma e a recompensa em meu bolso indicava sossego.

Assobiaram, quando descia a ladeira. Suspirei fundo e me soltei na Lapa, na noite da Lapa, atrás de uma boa comida, um cigarro, uma bebida – talvez. Ainda algum homem. Havia um rumorejar de vozes. A liberdade dos homens que assobiavam, mexiam, querendo, insistindo nos minetes, nas putarias, nas delícia da vida.


(oswaldo martins)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Diário de Manuel

II

Me sento à mesa do café. Está posta. Fumega um cheiro bom, acre. A mão busca o pão; sorvo o ar da manhã, sua limpidez. Ternura. Satisfação. Sem esforço, escuto as vozes da rua. O pegureiro irrompe na casa mobilada - acho graça. Irene.

__ Nhô?

Esmeralda foi como a boa Irene. Serviu-me e se foi. Era noite, passava lentamente pelo Bar do Ponto. Sob o paletó sentia a carne aquecida. Restava do dia tomar um café forte, fumar o último cigarro, respirar o cheiro da vida e recolher-me. Ouviria o convento bater as horas, já sob as cobertas.

__ Nhô?

A voz conhecida me fez lembrar Recife. Virei-me. Café. Para esconder a decepção dos dias perdidos, das pessoas mortas. Entretanto, era tão viva a expressão do rosto, tão clara a carne sorrindo, convidando-me, que a garganta secou, tremeram minhas pernas e o sexo obesidente cegou-me, despertando o instinto de penetração.

O pegureiro ainda gritava, cada vez mais distante – a voz clara apagava-se. A sala vazia tomava vulto. Lavar a louça. Tirar o pijama. Tomar banho. Por onde andaria Esmeralda.



(oswaldo martins)

Diário de Manuel

I

Os olhos de Esmeralda fixavam-se em mim. Os arquejos faziam subir e descer os ombros. A respiração tensa e, não obstante o contato físico, sentia virem-me os acessos, a tosse, que deveria conter – os suores noturnos. A morte era minha velha conhecida. Esmeralda, não. Buscava apenas os horizontes, a glória do prazer – perder-se nas paisagens do sexo.

A presença da morte é aguda. Convive comigo desde sempre. Sou tísico e Esmeralda não sabe; pensa que fodeu com um homem são. Entregou-se e procurou seduzir-me com o braço, a boca e a respiração.

Sinto-me livre – a alma insatisfeita possuiu um corpo – dou-lhe dois tostões e a despeço. Esmeralda sai e antes me olha pela última vez. Chego à janela para vê-la descer o beco, faz escuro. Preciso dormir.
(Oswaldo Martins)